domingo, 3 de abril de 2011

Eles não conseguem entender.



Roselene Nunes de Lima



            Quantos textos, livros, jornais ou revistas publicam o tema analfabetismo funcional? Nem conseguimos contar. Os textos científicos e de opinião mencionam praticamente sempre o mesmo, que o Brasil está com alto índice de analfabetos funcionais, aquelas pessoas que se dizem alfabetizadas, assinam o nome, mudam de ano escolar – são aprovadas, arrumam “empregos”, mas não conseguem entender o que leem. Alguns escrevem e depois não conseguem ler o que escreveram ou por não entenderem a própria letra ou por não se lembrarem do que escreveram.
            A música constante no celular, o namoro, o bar, as piadas na TV, os chopes ou as cachaças nos fins de semana, os shows ou..., são opções mais atrativas do que sentar para estudar e se dedicar a um texto, por pequeno que seja esse tempo de dedicação. Momentos que enriquecem a nossa inteligência são poucos para a maioria dos brasileiros, pois sempre existe uma desculpa para não fazê-lo.
Nós, professores, que estamos com esse público todos os dias, sabemos muito bem como é. É um tal de “não tive tempo, professora” que é de entristecer. E se o aluno é do noturno a situação ainda é pior. Sempre defendo que dar aula no noturno é ir receber o salário. O trabalho não “anda”, fica parado. Esta inércia não é desejo nosso, é a quantidade imensa de alunos faltosos, eles assistem duas aulas e faltam duas ou três – com poucas exceções. São vários os motivos para a falta de acompanhamento. Estava trabalhando, cansado, com preguiça (é, eles falam mesmo que não foram à aula por preguiça ou porque “quis”) ou que tinha ido assistir à novela ao futebol, ao BBB 11...
Não se sabe se já houve paciência, mas acredita-se que este “ser” não exista em grande proporção, pois a maioria dos nossos alunos não tem paciência com as pessoas, nem consigo mesmo. 
Quando a criança aprende a ler, os adultos exigem muito dela solicitando que leia rápido aquele texto e ainda dizem que ela não sabe ler direito. A criança fica tão impressionada e ansiosa para ler rapidamente que esquece o verdadeiro sentido da leitura, que é entender o que se lê. Há uma transferência dessas informações para os anos seguintes de escolaridade e os alunos sabem ler (bem rápido), mas não sabem entender o que estão lendo. O triste disso tudo é que esses alunos crescem e querem que os professores leiam para eles as avaliações, as histórias, os artigo de jornais e outros textos.  
Não dá para ler o tempo todo para eles, é preciso crescer e perder o medo de aprender, um dia nós começamos a ler e aprendemos a entender, agora é a parte deles.

Artigo publicado no Jornal Tribuna Independente no dia 2.4.2011

terça-feira, 22 de março de 2011

Eu não acredito em mim!


Roselene Nunes de Lima


            Entrar em sala de aula e começar a falar sobre o objetivo daquele dia, a disciplina que leciona e como podemos aprender melhor é uma tarefa um pouco difícil quando se trata de alunos com um nível baixo de autoestima. Alguns dizem que essa disciplina é muito difícil, que não vão conseguir aprender ou dizem que são “burros”. Alguns até generalizam e dizem que a turma não vai conseguir entender nada da explicação. Imagine tirar essa força de impotência que eles trazem de casa, por serem diminuídos pelos familiares ou por terem algum déficit.
            Os alunos do noturno, que estão há muito tempo sem ir a escola, logo falam que não sabem se vão dar conta de aprender porque não estudam “há 15, 18 ou 20 anos”, esses, muitas vezes, são os que se destacam e aprendem melhor que aqueles que estavam no ano passado na escola. Não conseguem enxergar que são capazes e se depreciam.
            As famílias não dão atenção aos filhos como deveriam dar, às vezes machucam os sentimentos, os espancam e os desprezam. Provavelmente não aprenderam como criar os filhos, ou não tiveram bons exemplos e não confiam nos filhos como não confiaram em si. Quantas vezes flagramos nossos alunos depreciando os colegas, mangando mesmo, com assovios e gritos, pelo fato deles não conseguirem uma nota boa ou não responder uma pergunta feita pela professora ou professor.
            Os sentimentos dos nossos alunos estão cada vez mais confusos. Acreditam que a violência não diminui porque as pessoas são ruins e não têm conserto. Os programas de televisão que fazem sensacionalismo ajudam, e muito, nesta conclusão errônea dos menos valorizados – por eles mesmos. Os programas condenam e dão a punição “correta”. Os programas de televisão que dão educação e cultura estão na televisão paga, o que os alunos – a maioria – de escolas gratuitas não têm chance de assistir. Quando os programas, que fazem os nossos alunos crescerem intelectualmente, estão na televisão “aberta”, passam muito cedo da manhã, horário que a criança ainda está dormindo ou o adulto está indo para o trabalho, não existe um meio termo.
            Muita violência e pouca educação. Muito cuidado policial com o Senhor Obama, aquele que é o “cara” para o mundo, nessa visita ao Brasil, e pouca proteção aqueles que fazem do Brasil um país melhor, nós professores. Não estamos sendo respeitados em vários aspectos, sejam políticos ou sociais.
            Viver com dignidade no nosso país é uma tarefa árdua, precisamos de muita paciência e perseverança, além de tudo temos que esperar e lutar para que tudo isso um dia melhore.

Artigo publicado no Jornal Tribuna Independente no dia 22.3.2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Escola pública não é punição


Roselene Nunes de Lima

            As aulas já vão começar nas escolas públicas municipais e estaduais, todos estão ansiosos para rever os amigos antigos e conhecer novos. Os alunos que já são clientes, o que se chama ‘da casa’, conhecem a escola e seu sistema, os novos vão buscar adaptação devagar ou rapidamente, depende de cada um. Bem pensado no termo devagar, pois têm grupos que são de uma empatia formidável e tão grande que na primeira semana já parecem amigos inseparáveis. Os jovens são assim, adaptam-se muito facilmente, o que é muito bom para as relações nas escolas.
            Na escola paga também funciona parecido, até porque somos todos seres humanos e não somos quase nada diferentes. Os costumes de um ambiente parecem com os costumes de outros ambientes, falando a mesma língua ou não passamos por situações similares.
            Alguém já ouviu um pai ou uma mãe dizer a célebre frase: “Se não passar de ano nessa escola eu coloco na escola pública.”? Acredito que muitos de nós já escutamos.  O pior é que ainda tem o triste complemento: “Eu não vou gastar dinheiro se você não quer estudar”. As famosas chantagens que às vezes dão certo e os filhos chantageados “estudam” para serem aprovados porque ir para escola pública é passar o maior mico, no ponto de vista de alguns alunos ou mesmo dos pais.
            Agora eu pergunto: estudar na escola pública é punição? Será que é tão ruim como esses pais falam? O interessante é que nós já fomos alunos das escolas públicas. Sem contar que há algumas escolas particulares que são tão sem estrutura física e humana que são capazes de atrasar por meses os salários dos professores e, mesmo assim os alunos acham uma vantagem imensa estudar nelas. Alunos pobres que, muitas vezes nem pagam a mensalidade, se acham ricos.
            Além da escola pública ser desprestigiada ainda há pessoas que chegam nelas num “salto” de dá medo, exigem o atendimento imediato e dizem que vão deixar o filho naquele ano porque é o jeito.
            Os pais que fazem da vida dos filhos um jogo de azar, apostando nesse ou naquele lugar para que eles se deem bem na vida poderiam tratá-los de forma humana, descobrindo as fragilidades e necessidades deles, seus anseios, seus pontos fortes e explorar bem o que é de melhor que tem dentro de cada um, mostrar porque se deve estudar e que a escola é sempre muito boa e nos possibilita conhecer um mundo a nossa frente.
            Senhores pais, escola pública não é punição, um dia já estudamos nela e criamos nossos filhos.

Artigo publicado no Jornal Tribuna Independente no dia 17.2.2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Paradoxos brasileiros



Roselene Nunes de Lima

            O Nordeste do Brasil é no Brasil, mas não parece para os que o discriminam. Duas reportagens passaram na televisão com o mesmo tema e com informações diferentes. A televisão transmite informações sem base em pesquisa? Os telespectadores ficam confusos quando assistem a dois canais e,se assistirem somente a um canal, ficam certos das informações. A reportagem em um canal de televisão foi informando que a região sudeste está carente de pedreiros porque esse profissional algum tempo atrás era oriundo do Nordeste do Brasil e, pelo fato de haver o programa social do governo federal, bolsa família, esses pedreiros não estavam mais precisando buscar emprego fora do Nordeste, pois se sustentavam do dinheiro do programa. Já outro canal disse que o motivo da carência de profissionais da construção civil em São Paulo e Rio de Janeiro se devia ao crescente número de obras no Nordeste e, as pessoas que antes buscavam empregosem outros cidades,passou a tê-los próximo as suas residências. Pode até ter uma terceira opinião, mas a primeira quis diminuir os nordestinos, como se no Nordeste do Brasil só existisse pedreiro e que o povo nordestino se sustentasse somente do bolsafamília. Sabemos que o bolsa famíliaatende pessoas de baixa renda do Brasil inteiro.
As pessoas procuram emprego e o nível exigido é curso médio da Educação Básica, mas ter curso médio não garante saber ler e escrever, requisito mínimo para se trabalhar como aprendiz ou no comércio, pois segundo o sítio www.planetaeducacao.com.br, “No Brasil, 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Esse número inclui os 68% considerados analfabetos funcionais e os 7% considerados analfabetos absolutos, sem qualquer habilidade de leitura ou escrita. Apenas 1 entre 4 brasileiros consegue ler, escrever e utilizar essas habilidades para continuar aprendendo.”, o que significa que só 25% das pessoas conseguem ter a habilidade de corresponder as expectativas das empresas.
Muitos alunos matriculados, que se acham estudantes, mas na verdade são frequentadores de aulas, iludem os familiares quando “passam” de ano – são aprovados – e dão a impressão que estão aptos a galgar, de fato, degraus da intelectualidade.
O governo federal quer alunos aprovados com qualidade, mas só libera dinheiro para a educação se aquela escola tiver alto índice de aprovação. Ter qualidade é difícil num universo de alguns professores sem compromisso com a educação alheia – só pensam na educação dos seus filhos – ou muitos alunos com históricos variados nas suas vidas, como desinteresse dos pais por eles, facilidade de aquisição de bens materiais vendendo drogas, principalmente quando esse aluno é menor de idade. Outro fator que atrapalha o interesse em estudar são os jogadores de futebol sendo bem valorizados pela mídia. Todos aqueles que gostam de jogar uma “pelada” também acham que podem ter sucesso, mas não é verdade.
Nós, professores, precisamos construir um Brasil pensante e crítico.
Artigo publicado no Jornal Tribuna Independente em 2.2.2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Ética? Educação?



Roselene Nunes de Lima

            Os nossos alunos sabem o conceito de ética, são capazes de dar aula sobre o tema. Estamos sempre fazendo debates e criando situações para testar a capacidade de apreensão deles. Infelizmente muitos de nós sabemos o que é ser ético – infelizmente mesmo, antes não soubéssemos, talvez fôssemos melhores enquanto pessoas. Mas, o conceito é mais bem assimilado quando é aplicado para nós mesmos, quando se trata dos outros... bem, “deixa para lá”, muitos dizem.
            Quando eu era criança vi um homem pedir um picolé e prová-lo, sem que o vendedor percebesse, depois voltou para o saquinho (que antes era aberto) e disse que preferiria outro sabor. Eu disse ao vendedor que jogasse os picolés fora, pois um homem tinha lambido um picolé, mas o vendedor não acreditou, pois eu era criança.
            Cresci e não posso passar despercebida. Saí e fui a um supermercado que inaugurou há menos de um ano em Maceió, lá se vende em varejo e atacado, os preços eram muito bons, mas estão aumentando. Presenciei de tudo por lá. Uma família tomou dois iogurtes, depois colocou as embalagens no lixeiro “nas barbas” da funcionária que etiquetava os preços dos legumes e frutas, aquela fome de morrer que não pode esperar para passar pelo caixa, foi roubo, quer dizer, furto. Vi pessoas tomando outros líquidos e jogando os frascos vazios no chão, comendo biscoito e deixando as embalagens abertas nas prateleiras, ainda vi um homem furando a fila e dizendo que estava morrendo e que essa justificativa era para furar a fila, eu falei a ele que quem está morrendo não sai de casa para um supermercado, sai para o cemitério. É lógico que o cara ficou irritado fazendo com que eu fosse a vilã da fila.
            Vocês já perceberam que algumas pessoas que falam muito baixo, às vezes para defender seus “direitos” passam a falar bem alto? Pois foi o que aconteceu com esse homem que furou a fila, ele pediu para passar na frente de um cliente e esqueceu que havia outras pessoas na mesma fila e ele estaria contrariando todas.
            As pessoas desrespeitam as outras furtando nos supermercados, nas empresas que trabalham, nas casas dos amigos, nos consultórios médicos; essas pessoas vivem atacando a nossa dignidade, desafiam as regras que elas “ensinam” aos filhos, furtam a energia e a água através do famoso “gato”. Essas mesmas pessoas ficam bravas, chateadas e indignadas com as falcatruas do governo, seja no escândalo dos taturanas, da merenda escolar ou qualquer outro. O que elas estão fazendo?
            As pessoas pensam que vão dar a melhor escola para os filhos porque a escola pública “não presta”, na linguagem de alguns, mas também não podem pagar as mensalidades, são caras para a maioria dos brasileiros, tem lista de material para comprar e outros adendos que a escola “inventa” durante o ano letivo. Em resumo: furtam também a escola, que é “boa”, no ponto de vista deles. Deixam de pagar o ano todo e depois tiram os filhos dizendo que não gostaram da escola.
            Chorem todos ou façam vistas grossas para a “ética” e a “educação” dessas pessoas, pois não dá para educar gente criada com idade adulta.

Artigo publicado no jornal Tribuna Independente no dia 11.1.2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Papai Noel perdeu o emprego!

Roselene Nunes de Lima


O bom velhinho – ou ilusório velhinho – já está desempregado, mas ele é multifacetado, agora é hora de ser Rei Momo, depois o Coelhinho da Páscoa, a seguir a Mãe de todos,..., ele “vira” até namorado, não importa a sua face, o que importa é que o povo fica cada vez mais consumista, compra muito. O mês de dezembro deixa o comércio cheio de dinheiro e o assalariado com os bolsos e as bolsas vazias bem rapidinho, a poupança nem é lembrada. O décimo terceiro acaba logo e o cartão de crédito entra em cena. As lojas imploram por eles. Os e-mails que recebemos são em efeito cascata, um após o outro. Promoção – de mentirinha – de tudo, muito fácil comprar, difícil é equilibrar as contas depois da “festa”.  
            Se levarmos em conta o Papai Noel, do mundo machista, apenas sendo ele mesmo, uma pessoa gorda, idosa e com barba branca comprida e uma barriga enorme, sem contar com o mutismo. Fala quase nada ou nada, mas acena bastante. O interessante é que as mães compram os presentes e, mesmo assim, continuam sendo o “Papai Noel”. A figura de bonzinho está na abstração de algumas crianças, criada pelo comércio para estimular o consumismo, pois quando essas crianças se deparam com ele ao vivo nas lojas, ficam com medo ou acanhadas. Há algumas crianças – grandes – que simulam tanto para os pais que acreditam nessa ilusão ao ponto dos pais acreditarem que elas ainda acreditam em Papai Noel, ou seja, elas próprias já são os “papais noeis” dos pais. E a vida segue muito feliz até que os pais descobrem que ficaram “Velhos Noeis” e já se transformaram em “Vovôs Noeis”, a ilusão continua, passam a criar os filhos, netos e...
            Chaga a hora da distribuição dos presentes. Todos compraram – com dinheiro ou cartão de crédito em parcelas – presentes caros. É, as pessoas não querem ficar numa situação inferior comprando presentes baratos, o ideal é o caro mesmo. E vocês já perceberam que alguns presentes são inúteis, depois do: “Adorei!” o quarto de entulho é contemplado, lá são esquecidos para sempre. É o famoso amigo secreto. Tem também o inimigo secreto, que é uma brincadeira de mal gosto, bem apreciada por aqueles que não fazem uma reflexão sobre o verdadeiro sentido de Natal. Logo uma pessoa detona com a outra e fica tudo bem.
            Junto com o final das festas, além do emprego dos Papais Noeis, os outros empregos vão-se embora. Aqueles chamados de temporários. Vender em lojas parece fácil. Atender de qualquer jeito, sem saber preços dos itens, sem saber atender bem os clientes, mas é festa, não precisa ser bom no atendimento, o cliente tem dinheiro, as lojas estão cheias e “o dinheiro está ávido” para sair das bolsas e dos bolsos. Tem outra, os funcionários ditos “fracos” só ficam dois meses mesmo.
           
Artigo publicado no jornal Tribuna Independente no dia 2.1.2011